quinta-feira, 1 de abril de 2010

Histórias de Quinta

 
"Tia Dafne" 

Estávamos em uma boate qualquer, o som estava alto, as pessoas estavam dançando, interagindo. As luzes formavam um caleidoscópio extasiante e, de tempos em tempos, uma cortina de fumaça cobria a pista de dança. Eu observava aquele cenário com certo desinteresse, como se não fizesse parte dele, mas, ao mesmo tempo, eu queria gravar tudo o que estava acontecendo. Dafne, uma garrafa de tequila e eu... Isso era o meu mundo naquele momento.
Gosto de me manter sóbria, mas ela havia insistido tanto para que eu a acompanhasse na tequila, simplesmente não pude resistir. Afinal se ela já me descontrolava naturalmente, que mal poderia haver? Eu bem o sabia, mas optei por iludir a mim mesma.
Sua eloqüência era característica nata. Desde que nos conhecemos, eu não conseguia dizer “não” para aqueles olhos lindos, que, de tão enigmáticos, eu não conseguia decifrar nem a cor. Era namorada de meu tio. Tinha vinte e sete anos, impecavelmente educada e muito atraída por ciências exatas. Quando a vi pela primeira vez, senti que já a conhecia. “Deve ser de outra vida”, supôs Dafne.
Sempre odiei vê-la como parenta. Meu tio, durante um almoço familiar, sugeriu que eu a chamasse de “tia Dafne”. De imediato, minha vontade foi quebrar uma garrafa de vinho em sua face. Não só pelo fato de considerá-lo um calhorda, mas por ter me sentido extremamente estranha com aquela possibilidade.
A aparência de Dafne, de fato, chamava a atenção. Tinha cabelos castanho-claros, não muito compridos, com algumas mechas loiras espalhadas por entre os fios. Os lábios rosados quase sempre carregavam um sorriso irônico, como se ela pudesse enxergar todos os nossos defeitos e rir-se deles. Mas seus olhos nunca pareciam os mesmos. Eu era enlouquecida por seus olhos. Ninguém, no mundo, os tinha tão lindos.
Ali, naquela danceteria, eu sentia uma estranha sensação de liberdade. Éramos duas anônimas no meio de tanta gente. Eu não precisava disfarçar quando meus olhos caíam em seu decote, ou desviar de seu toque, temendo que alguém pudesse notar minha reação. Ela trajava um vestido preto, não muito curto, não muito longo. Sua barra roçava na metade das coxas, deixando-me invejada por tamanha regalia. O decote em V era um pouco mais atrevido, privilegiava seu colo bonito e os seios firmes. Quando ela dançava, eu me perguntava se ela dançava por causa da música ou a música só estava tocando por causa dela. Dafne esbanjava sensualidade, era como se estivesse nua. As curvas de seu corpo se destacavam por entre as das outras mulheres e ela, com uma lascividade quase que inconsciente, movia o corpo conforme o ritmo do som... e do pulsar de minhas veias. Suada, com o cabelo preso em um elástico e a franja rebelde caindo-lhe sobre o olho, ela veio até mim.
- Vamos? – perguntou enquanto jogava, graciosamente, a franja para trás
Ao tentar levantar, senti o efeito da bebida. Tonteei por alguns instantes e apoiei-me em seus ombros. Dafne era toda risos, encantando-me com as covinhas de suas bochechas.
- Melhor tomarmos um táxi. – disse ela
- Primeiro você precisa me ajudar a sair daqui. – respondi, rindo
Ela envolveu minha cintura com um dos braços e apoiou um dos meus em seu pescoço. Cruzou os dedos com os meus e fomos, abraçadas, até a porta de saída. Minha tontura não era mais culpa exclusiva da tequila. Senti o tom macio de sua pele e percebi o quanto seu rosto estava próximo do meu. Estremeci.
Ao entrarmos no táxi, deitei a cabeça em seu ombro. Seus dedos passeavam por entre os fios de meus cabelos e eu tentava decifrar-lhe os pensamentos, sentindo seu perfume. O motorista olhava-nos pelo espelho retrovisor com estranheza, seus lábios expressavam um sorriso malicioso. Ignorando-o, Dafne debochou:
- Desculpe-me, se eu soubesse que você era tão fraquinha para bebidas, não teria insistido. Esqueci que você é um bebê.
- Tenho dezenove anos, não sou criança. Além do mais, não bebi só por sua causa. – menti
Dafne gargalhou, desacreditando em minhas palavras. Sua risada era tão agradável que eu evitei falar até que ela parasse por completo.
Após pararmos em frente à minha casa, onde ela também estava hospedada, descemos do carro e o motorista despediu-se:
- Boa diversão, garotas!
Trocamos olhares desconfiados e começamos a rir histericamente. Meu corpo balançava enquanto eu tentava equilibrar-me no salto do sapato. Eu não sabia se Dafne ria de mim ou do motorista. Eu não sabia nem do que eu mesma estava rindo.
Quando conseguimos retomar o controle, Dafne voltou a me abraçar pela cintura e caminhamos em direção à porta. Ao chegar perto da porta da casa, encostei-me em um pilar para tirar os sapatos, pois não queria acordar ninguém.
- O que será que ele estava pensando? – perguntou Dafne, referindo-se ao motorista, enquanto se aproximava para me ajudar
- O idiota deve ter pensado que você e eu somos namoradas. – respondi
Dafne soltou os cabelos passou a ajeitá-los com as pontas dos dedos.
- Por que idiota? Sou tão dispensável que você não consegue nem pensar na idéia de ficar comigo? – perguntou ela, rindo
Senti meu rosto começar a enrubescer e espremi o corpo contra a coluna que estava atrás de mim, querendo sumir.
- Não é isso. É que, tecnicamente, você é minha tia. – respondi
Ela arregalou os olhos azulados e aproximou-se mais.
- Então se eu não fosse “tecnicamente” sua tia, você...?
Meu corpo voltou a tremer e meu coração parecia querer pular de meu peito. “Por que ela está fazendo isso?”, perguntei-me. Dafne esperava, ansiosa, por uma resposta. Desconcertada, passei uma das mãos pelos cabelos e desviei os olhos. Puxando-me pelo queixo, ela fez com que nossos olhos se encontrassem. Suas sobrancelhas estavam erguidas e o habitual sorriso havia sumido de sua fronte. Como se tivessem vida própria, meus olhos desviaram-se para seu decote e, quase que imediatamente, voltei-os para seu rosto, assustada. O sorriso voltou a formar-se em seus lábios.
- Parece que a tia Dafne não é a única por aqui que está tendo pensamentos libidinosos. – sussurrou ela, colando seu corpo ao meu
Ela olhava-me, esperando uma atitude. Um turbilhão de pensamentos invadiu minha mente e eu optei por ignorá-los. Seu olhar me fazia isso. Eu não podia dizer “não” a ela.
Mergulhei em um perigoso universo tátil. Enquanto sua língua quente explorava cada canto de minha boca, suas mãos se agarravam em minha cintura. Abri os olhos por um instante e, sem interromper o beijo, observei-lhe os traços dos olhos que, agora, estavam fechados e tão próximos de mim. Senti uma imensa emoção tomando conta de meu corpo, como se o coração fosse explodir. Envolvi sua cintura com os dois braços e apertei-a com toda a força, querendo mostrar-lhe o caleidoscópio de sensações que estava habitando meu ser. Afundei o rosto em seu pescoço, respirando de forma descompassada.
- Você está bem? – perguntou ela, afagando meus cabelos
- Te quero tanto que até dói! – respondi
Dafne fez com que eu olhasse para seu rosto e disse:
- Você me tem aqui, agora.
“Ela não entendeu”, pensei. Ignorando minha própria decepção, voltei a puxar-lhe pela nuca e colar seus lábios aos meus. Minha mente remoia o pensamento de que tê-la por um instante seria melhor do que nunca poder tocá-la.
Sua pele roçando na minha fazia com que meus instintos falassem mais alto que a razão. Dafne segurou-me pelas bochechas e inclinou minha cabeça para trás, deixando meu pescoço à mercê de sua língua quente e escorregadia. Enrosquei-me a ela com pernas e braços. Seu quadril encaixou-se entre minhas coxas e suas mãos se atreveram por baixo de minha saia.
- Vamos entrar, vamos? – perguntou ela, entre sussurros, no meu ouvido
Arrepiei. Sem esperar por uma resposta, Dafne pegou os sapatos do chão e foi abrindo a porta.
Já dentro de casa, ela jogou o calçado para um canto e voltou a me puxar pelo braço. Senti-me como uma espécie de fantoche em suas mãos. Fomos cambaleando, trocando beijos, no escuro, até a escada. Caí sentada em um dos degraus e quase que imediatamente ela enlaçou-me com as pernas e sentou em meu colo. Minhas mãos subiram seu vestido e deslizaram pela curva da cintura. Eu pressionava os dedos contra a maciez de sua pele, querendo memorizar suas formas. Envolvi ambos os seios com as duas mãos e ela jogou a cabeça para trás, com a respiração descompassada. Seus quadris rebolavam suavemente e nem mesmo o incomodo dos degraus em minhas costas faziam com que meu fogo abrandasse. Quando lhe mordi o pescoço, ela deixou escapar um gemido que ecoou pela sala.
- Menina louca... Vamos para o quarto antes que eu comece a fazer um escândalo! – gemeu Dafne
Levantamos e subimos a escada em segundos. Ao chegar no corredor, acendi a luz e Dafne, entre risadinhas e sussurros obscenos, apertou-me contra a parede e, aumentando a esfregação em mim, disse:
- Que vontade de te foder aqui mesmo!
Arregalei os olhos, estupefata pelas palavras sujas que haviam saído de uma boca tão perfeita e delicada. Era a primeira vez que a ouvia falando um palavrão. Sorri. Olhei para a porta do quarto em que meu tio estava dormindo e senti uma estranha e intensa satisfação me consumindo. “Estou com a sua namorada, seu imbecil”, pensei.
Sem pensar duas vezes, troquei de posição com Dafne, jogando-a conta a parede. Levantei seu vestido e deslizei uma das mãos para dentro de sua calcinha. Estava doente de vontade de sentir sua umidade. Deslizei os dedos em sua boceta escorregadia e logo ela gemeu. Não resisti. Queria senti-la, sê-la. Escorreguei dois dedos para dentro dela, que imediatamente soltou um gemido mais grave, tapando a boca em seguida. Tentou desvencilhar-se de mim, mas segurei-a com força. Quase me descontrolei ao sentir a quentura de suas entranhas. Havia um vulcão em erupção entre minhas pernas e eu só pensava em possuí-la.
- Carol!... Você está... louca? – perguntou ela, pausadamente, entre gemidos
Ignorei suas palavras e passei fazer movimentos de vai-e-vem com os dedos. Dafne agarrou-se em minhas costas com as duas mãos, enquanto afastava ainda mais as pernas. Seus dentes ora cravavam em meu pescoço, ora mordiam meus lábios, em uma demonstração clara de descontrole. Aumentei a velocidade do movimento dos dedos. Outro gemido. Passei a sugar sua língua, seus lábios, seu pescoço... Mais gemidos. O suor brotava de seus poros e seus dedos engancharam-se entre os fios de meus cabelos.
- Você é louca... Louca! Não faz isso. – disse ela, puxando-me ainda mais de encontro ao seu corpo
Segurei-me para não rir de sua confusão. Parecendo esquecer-se de onde estava, ela começou a gemer descontroladamente. Colei minha boca na sua, tentando abafar os gemidos mais agudos. Quando ela anunciou que estava quase gozando, imediatamente parei. Tirei os dedos, que agora estavam absurdamente molhados, de dentro dela e tentei me afastar um pouco. Dafne puxou-me com força e passou a esfregar o corpo contra o meu.
- Por que você parou? – perguntou ela, entre gemidos desesperados
Nada respondi, apenas observei a forma com que ela se colava ao meu corpo. Por um instante, pensei que meu tio fosse acordar para ver o que estava acontecendo. Intimamente eu desejei que ele o fizesse. Ele não fez.
Voltei a concentrar-me em Dafne, que continuava a questionar a minha pausa. Na verdade, eu queria vê-la sofrer um pouco. Meu descontrole era culpa dela. Meu descontrole era culpa dela com ele. Por isso eu queria fazê-la implorar... E ela implorou. Com as próprias mãos, mostrou-me o caminho para voltar a comê-la. Ela não parecia mais a mulher madura e dona de si. Parecia uma puta. Uma bela de uma vagabunda implorando por prazer. Eu dei-o para ela. Tapei sua boca com a mão que estava livre e passei a fodê-la com força. Seu corpo parecia febril e tremia inteiro. Seus gemidos tornaram-se soluços abafados. Suas mãos agarraram-se no tecido de minha blusa e logo eu senti suas contrações em meus dedos e os espasmos percorrendo todo o seu corpo. Todo o prazer que ela estava sentindo, fluiu para meus dedos.
Suas pernas fraquejaram por um instante. O corpo ficou mole, como se estivesse bêbedo. Quando fui beijá-la, percebi o sorriso enorme que estava lhe enfeitando o rosto. Era a coisa mais linda que eu já havia visto.
Chamei-a para o quarto, ela apenas assentiu com a cabeça e me seguiu. Mal fechamos a porta e ela já estava se jogando para cima de mim, novamente. Sua boca estava mais faminta que antes. Seus olhos pareciam selvagens, devoradores, davam-me calafrios. Não foi nada delicada, empurrou-me na cama sem a menor cerimônia. Tirou o próprio vestido e minha blusa com uma velocidade exagerada. Passou a sugar meus mamilos e senti seus dentes roçando de leve, provocantes. Senti sua coxa encaixar entre as minhas e pressionar meu sexo. Ela sabia o que estava fazendo. Se eu não estivesse tão excitada, teria me perguntado onde ela havia aprendido. Sua língua contornava as auréolas de meus seios e os lábios envolviam os bicos intumescidos. Ora ela chupava com força, ora ela era mais suave. Sempre com sua conxa entre minhas pernas. Quando sua língua quente deslizou para meu umbigo, fui ao céu e voltei.
Desceu para meu ventre, arrancou minha saia, observou minha calcinha, que, nesta hora, já estava encharcada. Fez cara de safada e mordeu os lábios de leve. Afastou a peça íntima para o lado e assoprou meu clitóris, deixando-me arrepiada. Aproximou-se lentamente. Deslizou a língua delicadamente por toda a extensão de minha vulva. Mal dava para senti-la. Afastei um pouco mais as pernas, ansiosa por sua boca. Ela repetiu o movimento, ainda suave. Senti vontade de pegá-la pelos cabelos e esfregar seu rosto em meu sexo, mas me controlei. Na terceira vez, Dafne abocanhou meu clitóris de forma que parecia que queria arrancá-lo. Meu quadril levantou-se da cama, tamanha a sensação de prazer que ela me provocara. Ela pressionou a língua contra o meu ponto mais sensível e a movimentou repetidamente. Meus olhos reviraram-se e minhas mãos agarraram-se aos lençóis.
Parou por um instante e foi beijar-me. Senti meu gosto em sua boca e percebi a expressão de enorme satisfação em seu rosto. Senti uma de suas mãos deslizando por minha barriga e indo de encontro ao meu sexo. Meu corpo tremeu com o contato de seus dedos. Primeiro ela lambuzou-os com meu próprio líquido, para em seguida colocá-los em minha boca. Dafne mordia-me o lóbulo da orelha e o pescoço, enquanto sua mão voltava para meu sexo. Aproximou seus lábios dos meus, mas não me beijou. Ficou apenas me olhando.
- Sobrinha gostosa! – sussurrou, provocando-me
Quando pensei em refutar, senti seus dedos me penetrando. Enlouquecida, puxei-a pelos cabelos e passei a beijar-lhe os lábios. Meu corpo se deliciava com cada centímetro dos dedos de Dafne. Seus seios roçavam-se nos meus e sua ajudava sua mão a pressionar ainda mais minha boceta. Eu podia sentir seu hálito quente em meu pescoço e sua respiração pesada. Até o cheiro de seu suor era bom. Ela estava tão descontrolada quanto eu, gemia junto comigo, como se estivéssemos dividindo exatamente o mesmo prazer.
- Olha só o que você faz comigo – disse ela – Me deixa louca!
Um mar de sensações tomou conta de mim e meus gemidos se assemelhavam a gritos. Notando meu estado de fraqueza, Dafne levou os lábios até meu clitóris. A aspereza de sua língua parecia triplicar o meu prazer. As pontas de seus dedos, dentro de mim, massageavam minhas entranhas. Não demorou muito para que meu coração ficasse ainda mais descontrolado. Meus sentidos e hormônios ficaram enlouquecidos. Os gemidos tornaram-se verdadeiros urros de um animal no cio. Meu corpo levantou-se da cama e logo em seguida desabou. Meu corpo foi praticamente devastado por um orgasmo convulsivo, avassalador, intenso.
Praticamente inerte, fechei os olhos por um instante. Dafne deitou-se ao meu lado, com um largo sorriso, e espalhou beijos carinhosos por todo o meu rosto. Suas mãos acariciavam meu corpo suavemente.
- Você é linda, sobrinha. – disse ela
- Se não parar de me chamar de sobrinha, vou te dar um soco. – ameacei, entre risadas
Dafne riu junto comigo e eu me senti a pessoa mais feliz do universo, naquele momento. Ignorei o que viria a seguir e o que já havia passado. Só me interessava a sua boca, que já estava voltando a provocar-me arrepios. Apesar do cansaço, eu jamais negaria qualquer coisa a ela.
No dia seguinte, acordei com o barulho dos cachorros latindo. Ainda com a visão um pouco turva, olhei para o relógio e vi que estava quase na hora do almoço. Estiquei o braço para o lado e encontrei a cama vazia. Dafne já havia ido. Levantei após alguns minutos, com a mente dividida entre remorso e felicidade. Quando cheguei perto da porta, vi um papel branco no chão. Nele podia-se ler:
“Querida sobrinha,
Estou mortificada por não ter tido a chance de observar seus olhos despertando do sono gostoso em que você se encontrava quando saí, mas você pode imaginar os motivos que me impediram. Sinto-me pior ainda por não poder te acordar do jeito que eu queria. Vou dar-te uma dica: É a mesma técnica que usei para te fazer dormir. Prometo que compenso na próxima.
Beijos gulosos e sufocantes...
Tia Dafne”
[...]

C.R.

Conto originalmente publicado na Casa dos Contos

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